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segunda-feira, 31 de maio de 2021

Felicidade, João Tordo

O meu primeiro contacto com a escrita de João Tordo foi com "Felicidade", um dos últimos livros publicados pelo autor. É dos autores que mais tem escrito e daqueles que sempre me despertou curiosidade. Gostei da experiência de leitura deste livro, embora esteja ainda mais curiosa com outros títulos.

Neste livro, dividido em três partes, acompanhamos um adolescente que se apaixona por uma de três gémeas. Estas três irmãs fizeram-me muito lembrar as de "Virgin Suicides", precisamente pelo ar misterioso que nos atrai para elas e pela forma como as conhecemos, meio que à distância. Neste caso, o protagonista apaixona-se pela Felicidade e, sabendo que este é o nome dela e que dá título ao livro, percebemos logo que ela terá um papel predominante nesta história. Eu diria até que é a personagem principal, embora a conheçamos muito pouco e apenas através dos olhos dele.

A narrativa inicia-se em 1973, em Lisboa, numa época de mudanças, das quais pouco nos apercebemos pelo estado meio alienado em que o protagonista se encontra. A sua própria vida dá uma volta brutal ao conhecer Felicidade, que tudo aquilo que se passa à sua volta não tem qualquer importância. Depois de um acontecimento trágico, que nos vai sendo anunciado desde o início do livro, os anos vão passando e a vida também.

Este livro é um prato cheio de referências à cultura daquela época, certamente reconhecíveis para quem a viveu, e que para mim também indicam um excelente trabalho de pesquisa para dar contexto e criar o ambiente envolvente desta história. É um livro sobre como algo muito bom pode ficar para sempre manchado na memória e no momento presente, onde ela se intromete constantemente.

Gostei muito da forma como o livro é escrito, tendo sempre em conta o leitor e em algumas vezes falando diretamente para ele. Foi um livro que me manteve interessada e com vontade de saber como é que esta tragédia ia acabar. Fiquei com vontade de pesquisar sobre mitologia grega, dadas algumas das referências e as ideias exploradas pelo autor. Com certeza que lerei mais obras dele.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

Mais um Saramago. E que livro este! "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" destronou "Memorial do Convento" no lugar de favorito do autor, embora este continue a ter um cantinho especial. Não sabia bem o que esperar, além de uma escrita muito inteligente, cheia de simbolismo e sarcasmo, e das críticas e reflexões muitas vezes subjacentes às obras deste autor. E isto já era mais que suficiente, embora tivesse aqui um bichinho de curiosidade, deixado cá pela minha professora de Português do ensino secundário, que falou da polémica que envolveu este livro na altura do seu lançamento. Afinal de contas, é um livro sobre Jesus Cristo, escrito por alguém que é ateu.

E se o título não fosse sugestivo o suficiente, esta é a história de Jesus Cristo contada na sua perspetiva, onde ele é o protagonista e é um ser humano. Começa precisamente com os seus pais, no momento da sua conceção, que nos é apresentada a partir da descrição de uma pintura. A partir daí, acompanhamos o crescimento de Jesus, desde a sua infância com vários irmãos, à adolescência e aprendizagem do ofício de carpinteiro. Acompanhamos Jesus na morte do seu pai José, na busca pelo autoconhecimento e pelo entendimento da fé. Vamos com ele quando sai de casa, conhecemos o romance com Maria de Magdala e o pastor com quem passa uma temporada no deserto. Isto sempre acompanhado das suas dúvidas, angústias e toda a sua busca por compreender quem é, que legado lhe foi deixado por José e, por outro lado, os seus questionamentos em relação a Deus e o Diabo, ao bem e ao mal. É incrível...

Este livro tem vários momentos muito bons e que me vão ficar na memória durante momento tempo, principalmente as questões ligadas a Deus e o Diabo e como os dois se fundem. Aquela cena no mar... Ah! Que soberbo. O cérebro deste senhor devia ser um sítio incrível para explorar. Que saudades... Ele desejava que continuasse a haver tempo para escrever e eu desejo que o tempo continue para poder ler os que ele nos deixou.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

a máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe

Foi desta que li Valter Hugo Mãe. Há anos que tenho este escritor na mira, de tanto ouvir falar bem dele. Aproveitei o empurrão do grupo de leitura "É Desta Que Leio Isto", onde foi lido o "a máquina de fazer espanhóis" durante o mês passado.

Neste livro acompanhamos a nova fase da vida do Sr. Silva, um barbeiro reformado, que é deixado no lar pela filha, após a morte da esposa. E por isto, é um livro que aborda a velhice, o passar do tempo, os medos, o olhar em retrospetiva para a vida que se viveu e todos os sentimentos que isso acarreta. É um livro que nos coloca de tal forma no lugar da sua gente, que é difícil conceber que foi escrito por alguém que nem 50 anos tem. 

O Valter Hugo Mãe dedica este livro sobre a terceira idade ao pai, "que não viveu a terceira idade". E fá-lo de uma forma cheia de empatia e através de uma escrita muito bonita. Encontramo-nos aqui com a ausência de maiúsculas típica de Saramago e com a ausência de marcadores de discurso, o que inicialmente pode parecer um obstáculo à leitura, mas rapidamente se entranha e entramos num ritmo de leitura muito fluído, em que por vezes se misturam pessoas e falas com pensamentos.

Este é daqueles livros que vou querer reler nos próximos anos, porque além do conteúdo da história em si, é uma leitura muito saborosa. Deu-me muito gosto ler a escrita deste autor e pretendo conhecer mais obras dele. Foi mais uma boa descoberta deste ano!

Um dos aspetos que mais me fascinou neste livro, além da escrita e do tema abordado - que não tenho apanhado em muitos livros; foi precisamente as personagens. Na discussão em grupo, questionávamo-nos se estas personagens eram realistas e a verdade é que o conteúdo tão elaborado dos seus diálogos vai no sentido contrário. Mas ao mesmo tempo não deixamos de acreditar nelas e de querer conviver com este grupo de amigos que aqui se formou. Há diálogos muito interessantes e ideias que merecem ser relidas e repensadas. 

Embora sejam livros e experiências diferentes, no outro dia dei por mim a comparar a minha leitura do "Aparição" e esta. Ambas tiveram um impacto semelhante em mim e me deixaram a pensar durante os momentos e dias que se seguiram ao término da leitura. Ambas tratam temas como a passagem do tempo, a existência, a finitude e o sentido para tudo isto. 

"o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Obras Completas (volume 1), Maria Judite de Carvalho


"Para mais essa experiência, a da vida, foi sempre para mim demasiado difícil. Nunca me habituei a ela e isso é estranho porque todas as pessoas a consideram uma coisa simples e natural, a mais natural e mais simples de todas quantas existem. Eu fiz sempre cerimónia e não procedi por isso como devia, como procediam as outras pessoas, mesmo as mais broncas e as mais rudes, com à-vontade. Falei alto quando as regras mais elementares mandavam falar baixo, calei-me quando devia absolutamente dizer alguma coisa, não soube estar. Eu, de facto, nunca soube estar. Escolhi sempre mal as ocasiões para falar e para ficar calada. Troquei tudo, baralhei todas as coisas a ponto de não me achar a mim própria."


Sinto-me tão pequenina ao lado da escrita da Maria Judite, que não acredito ser capaz de articular alguma coisa que faça jus àquilo que encontrarão ao abrir um livro dela. É sempre marcante quando estou a ler um livro e me surpreendo comigo mesma lá no meio, sem quaisquer sinais de aviso. 

No fundo, é por isto que eu leio. É incrível sentirmo-nos ligados a alguém através das palavras. E alguém que as escreveu noutro sítio, noutros tempos, noutra pele, mas que afinal não é assim tão diferente de nós. E que forma tão bonita de usar as palavras! A escrita da Maria Judite de Carvalho é muito especial. Tenho vontade de a oferecer a toda a gente e ao mesmo tempo guardá-la só para mim. Há muito tempo que não me apaixonava assim pela escrita de alguém. E logo à primeira página! E também há muito tempo que não me emocionava ao ler um livro. Aliás, antes deste, não me lembro da última vez.

Felizmente, toda a obra da autora foi recentemente reeditada e publicada em seis volumes, por isso ainda tenho mais por onde ir depois deste. Escreveu maioritariamente contos e novelas, mas também algumas crónicas, poesia e uma peça de teatro. Neste primeiro volume estão os primeiros livros, "Tanta Gente, Mariana" (1959) e "As Palavras Poupadas" (1961). Fui conquistada logo com "Tanta Gente, Mariana", cujas palavras fui sublinhando (à semelhança do resto do livro) e vou agora relendo aos poucos, relembrando-me sempre da vontade que senti de poupar este livro enquanto o lia. Não queria de todo que ele chegasse ao fim, embora saiba que tenho cinco volumes à minha frente. Mas estava-se tão bem ali.

Sendo um livro de contos, não me faz sentido procurar resumir o que neles é abordado. Apesar de também escrever sob a perspetiva masculina, a maioria das personagens destes contos são mulheres que estão fora do trilho que havia sido traçado para a mulher portuguesa de meados do século XX. Através de todas elas, e de uma forma muito profunda, entramos em contacto com várias angústias inerentes à condição humana e à existência tal como ela é. Todos nós temos partes nossas que não partilhamos com ninguém e é aí que a escrita da Maria Judite vai.

Essa audácia expressa na sua obra é algo ainda mais incrível se formos a considerar a época em que foi escrita e o papel da mulher nessa altura. É admirável e inspirador encontrar alguém assim. Alguém que escreve uma obra como "Tanta Gente, Mariana", que foi, como o seu Urbano a viria a descrever, "uma espécie de bomba, sem excessos verbais, que caiu sobre o marasmo da sociedade portuguesa do final dos anos cinquenta, com uma ironia dolorosa, por vezes ácida, denunciando as frustrações e contidas mágoas da mulher portuguesa entregue aos caprichos masculinos e aos «brandos costumes» da hipócrita moral salazarista".

quarta-feira, 20 de maio de 2020

O Primo Basílio, Eça de Queiroz

Desde "Os Maias" que tinha saudades da escrita do Eça de Queiroz e "O Primo Basílio" era o livro que tinha aqui por ler na estante há uns anos. Foi-me recomendado como um "livro engraçado" e agora, depois de lido, posso dizer que concordo, até porque o sentido de humor é um dos aspetos que sempre associei à escrita do Eça. Isto especialmente no sentido em que ele muitas vezes ridiculariza as personagens, algo semelhante, na minha opinião, à escrita do meu querido Charles Dickens.

Resumindo o enredo desta história, nela começamos por entrar na casa deste casal burguês lisboeta, a Luísa e o Jorge. A leviandade das conversas entre eles, os problemas que os atormentam, tudo tão típico daquela sociedade da altura, levaram-me involuntariamente a ler as primeiras páginas do livro com aquela voz meio nasalada e muito chic. Acredito que o Eça tenha feito de propósito!

Com o desenvolver do livro fui-me ligando mais a estas personagens, embora a que me tenha despertado mais interesse tenha sido a Juliana, uma das criadas da casa. Quanto ao casal, este tem uma vida normal dentro daquilo que é esperado deles e da sua classe social. Ele tem uns negócios, ela fica em casa o dia todo, recebe pessoas, falam da vida dos outros e daquilo que no momento está a ser mais falado na moda e nas artes. Nestas conversas vamos notando a valorização cega e sem espírito crítico de algumas tendências que vêm do exterior, o que é também perceptível através do constante uso de estrangeirismos. É tudo muito chic.

Esta vida calma e pacata é virada do avesso quando Jorge precisa de se ausentar por questões profissionais, partindo para o Alentejo por uns tempos e deixando Luísa sozinha com o tédio dos dias. É nesta altura que volta a aparecer na sua vida uma pessoa que virá agitar as águas e trazer-lhe muitas noites mal dormidas. Bem aconchegadas, mas mal dormidas.

Este é um livro que explora alguns temas que já estamos habituados a ver associados à sociedade burguesa portuguesa do século XIX. Eça é conhecido pela crítica social que faz nas suas obras e neste livro essa crítica é especialmente aguçada. Aborda temas como a falta de espírito crítico, o adultério, a mesquinhez, a inveja, a disparidade entre classes sociais (mas que sendo todos seres humanos, têm também aspetos em comum), a vida de aparências, a falsa moralidade e a hipocrisia.

Há personagens desprezíveis neste livro - a maioria, diria eu. No entanto, despertam-nos interesse e motivam muito a vontade de continuar a leitura. Houve uma parte do livro em que o meu ritmo abrandou um pouco, mas rapidamente a ultrapassei e, fora esse momento, foi um livro que li num ápice. Até porque a certa altura estava desejosa de saber como é que a Luísa ia desatar aquele nó. E Eça resolveu muito bem esta história e terminou-a de uma forma que me agradou.

A minha edição tem no final uma preciosa carta escrita pelo Eça a Teófilo Braga, em que este se mostra surpreendido pelo interesse do amigo e escritor por esta obra e em que fala um pouco de como tentou fazer um retrato de um conjunto de pessoas tão típicas, que qualquer um deles conheceria alguém semelhante. É muito engraçado ver o autor falar da própria obra. Passei um bom bocado com este livro e recomendo muito a quem gosta de Eça.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Retorno, Dulce Maria Cardoso

Nem sempre é assim, mas vou começar já por dizer que o meu objetivo com este texto é convencer quem se cruzar com ele, de que quer ler este livro. Porque este precisa mesmo de ser lido.

São muitas as recomendações de livros que vejo diariamente e, não as seguindo a todas, fico muito feliz por ter decidido seguir a da Silvéria. Nunca tinha lido Dulce Maria Cardoso e pouco sabia em relação ao período da descolonização e dos retornados. Talvez isto nem seja por acaso... Afinal não passaram assim tantos anos e acredito que para muitos seja ainda uma ferida aberta, onde ainda não se consegue mexer muito. Foi a vontade de compreender melhor esta realidade, até porque não tenho testemunhos de pessoas próximas de mim, juntamente com a vontade de conhecer mais escritoras portuguesas, que me levou a avançar com esta leitura. 

E foi uma viagem sem retorno, porque é impossível ficar indiferente a esta história. A escrita da Dulce Maria Cardoso é deliciosa (das que mais gostei nestes últimos tempos, honestamente) e, juntamente com a narração da história por parte do Rui, prenderam-me desde as primeiras páginas.

Lemos o primeiro capítulo e o cenário é-nos apresentado. Estamos em 1975 e percebemos claramente que se vivem os últimos dias em casa, em Luanda. Os nossos olhos são os do Rui, um adolescente de 15 anos que vive com os pais e a irmã na sua casa de sempre, que deixou de ser para sempre. Logo neste primeiro capítulo, ficamos com a sensação de nó na garganta assim que nos tentamos colocar no lugar destas personagens e tentamos imaginar como se estariam a sentir. Provavelmente, uma mistura de tristeza, revolta, medo, frustração, desamparo e sabe-se lá que mais... E sentimos tudo de uma forma muito real, não só porque nos conseguimos ligar muito bem ao Rui (de quem acho que vou ter saudades), mas porque assim foi e porque a própria Dulce passou por tudo isto.

"E a manhã voltou a ser a nossa última manhã aqui, os quintais ficaram vazios, os fogareiros cheios de chuva antiga, os pneus quietos nas árvores como se fossem olhos parados no ar a fazerem-nos perguntas. A nossa última manhã. Tão silenciosa apesar dos tiros."

Acompanhamos os últimos dias e, com o coração apertado, vemos com o Rui a casa a ficar cada vez mais pequenina no espelho retrovisor. Seguem-se os longos meses em que um quarto e uma varanda de hotel se tornam forçosamente numa casa e em que esta família (e outras) procura adaptar-se à mudança das suas vidas. Os sonhos, os planos, os medos, as perdas, o estigma, o sentimento de inadequação, de  rejeição, revolta e de não pertencer a um lugar. 

Este livro lembrou-me muito do porquê de gostar de ler. É o querer saber mais, querer conhecer histórias de vida e querer calçar os sapatos do outro e sentir algo minimamente semelhante àquilo que ele sente; compreender melhor realidades diferentes da minha. "O Retorno" deu-me isto tudo, juntamente com a possibilidade de descobrir a escrita maravilhosa da Dulce, que preciso agora de explorar melhor. Acho mesmo que este livro se vai tornar num clássico da literatura portuguesa, até porque retrata um período tão importante da nossa História. É uma história que precisa de ser lida.  Aproveitem que vem aí o Natal e ofereçam isto a toda a gente! 

Gostava de ler mais livros cuja narrativa se passe nesta época e por isso agradecia muito a quem me desse sugestões!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Davam Grandes Passeios aos Domingos enquanto Bebiam Gin-Tonic

Tinha pensado em não escrever a minha opinião sobre estes dois livros, mas decidi que era útil fazê-lo, principalmente por causa da minha memória de peixe, que agradece muito o trabalho que lhe facilito sempre que eu escrevo sobre os livros que leio.

C O N T O S   D O   G I N - T O N I C

Já andava há algum tempo à procura de uma edição dos Contos do Gin-Tonic, do Mário-Henrique Leiria, mas este livro já não é editado em separado. Atualmente temos uma edição com toda a ficção deste autor, incluindo os contos deste livro, mas para mim não compensava o investimento, já que apenas queria perceber se gostava desta obra específica. Até que encontrei uma única edição perdida nas estantes da biblioteca, por requisitar desde há dez anos. Trouxe-o logo comigo! Era desta que ia ler os Contos do Gin-Tonic! 

Sendo um livro de contos, fui lendo aos poucos, enquanto acompanhava com outras leituras. É um livro muito curtinho, com a maioria dos contos a ocupar apenas uma, duas ou três páginas, então lê-se bastante depressa, embora a certa altura desesperasse por chegar ao seu final. Não desisti da leitura, porque não é costume e porque, sendo um livro de contos, estava sempre à espera que o próximo fosse melhor. Não posso dizer que não gostei deste livro, apenas que ficou aquém das minhas expectativas. Não sei bem o que esperava dele, mas a maioria dos contos foi-me indiferente, embora tenha gostado bastante de alguns. São feitas muitas referências sociais e políticas, nomeadamente à guerra colonial, o que me deixou a pensar como é que este livro terá passado na censura. Dos contos de que gostei, alguns muito desenháveis, destaco o facto de serem surrealistas, de nos fazerem sentir que espreitamos para dentro de um sonho e o recurso ao humor, muitas vezes negro. Mesmo não tendo adorado, foi uma boa experiência.


D A V A M   G R A N D E S   P A S S E I O S   A O S   D O M I N G O S

Numa outra ida à biblioteca, com o propósito de explorar um bocadinho mais o mundo da poesia, acabei por trazer comigo um livro de prosa do português José Régio, de quem apenas conhecia alguns poemas. Trouxe o Davam Grandes Passeios aos Domingos, uma pequena novela com menos de 100 páginas, inicialmente com a ideia de o tentar ler em 24 horas e participar no projeto da Silvéria. A vida meteu-se no meio e demorei um bocadinho mais a lê-lo do que tinha planeado, mas foi uma leitura muito prazerosa. 
Sendo muito curto, não vou dar muitos detalhes, para não estragar a experiência de quem o queira ler. Trata-se da história de Rosa Maria, uma jovem que se muda para Portalegre para viver com uma tia rica, depois da morte da mãe. Ao longo destas curtas páginas vamos conhecendo esta protagonista insegura e vamos acompanhando a forma como se está a adaptar à sua nova vida. Atravessamos com ela os dias nostálgicos, em que vê pela janela a paisagem alentejana e relembra os dias passados com a mãe; mas também os dias em que tem que se embrenhar na cultura pseudo-aristocrática, movida pelas aparências e pelas mesquinhices. Aqui pelo meio conhecemos também uma paixão confinada apenas às paredes da existência de Rosa Maria e vemos a forma como esta lida com tais sentimentos. A minha veia trágica esperava um final diferente e embora não tenha sido um livro extremamente marcante, gostei da sua leitura.

terça-feira, 31 de março de 2015

Resenha: No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares


"Escrever é usar as palavras que se guardam: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer."

Como mencionei na publicação anterior, tencionava reler este livro do Miguel Sousa Tavares e foi isso mesmo que fiz. Decidi fazer uma mini pausa no Anna Karenina e ler outra coisa. De facto já tinha lido este livro, mas como foi há tantos anos, confesso que já de pouco me lembrava. Só sabia que tinha gostado.

Basicamente, No Teu Deserto começa imediatamente de uma maneira pouco comum. Logo no primeiro parágrafo é dito ao leitor que no final do livro a outra protagonista do romance irá morrer, "como se morre nos romances: sem aviso, sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar".

Então, nesta história, o narrador vai contar-nos, como se se estivesse a dirigir à outra protagonista deste "quase romance", aquilo que viveu com uma mulher, a Claúdia, numa viagem pelo deserto do Saara. Esta não chega a ser uma relação romântica, por muito que o leitor acabe por torcer que sim. 

Comparando a minha primeira leitura, acho que gostei mais da primeira vez que o li. Tal não significa, de todo, que não tenha gostado dele agora! Gostei, mas algumas partes foram um pouco superficiais de mais. Contudo, este livro consiste no narrador a contar como foi a sua viagem pelo deserto e fá-lo dirigindo-se à pessoa que esteve com ele, o que talvez possa desculpar essa falta de aprofundamento. Outro aspecto que me incomodou um bocadinho foi o facto de haver partes do livro narradas pela Claúdia, o que não faz grande sentido, visto que esta história é contada a partir do futuro, ou seja, a Claúdia já estaria morta aquando da narração. 

Na minha opinião, a melhor parte do livro é mesmo a forma como o autor escreveu algumas partes, a forma como pensou e embelezou algumas coisas. De facto, a maneira como ele falou do deserto, fez-me olhá-lo de outra forma, não sendo apenas o sítio onde não se passa nada.

Por fim, acho que é um bom livro para descontrair, até porque se lê de forma bastante rápida. 

"Não, não era disto que eu estava à espera: não estava à espera de te ver assim, caído sem defesa nem disfarce, e de sentir esta vontade incrível de me encostar a ti, como se tu fosses uma parede e eu o seu contraforte. Mas agora não vou pensar nisso, vou só dormir assim, abraçada a ti - e amanhã, se vier a propósito, falamos disso."

"De facto, só abro a gaveta quando vou à procura de uma imagem específica que possa ter uma utilidade concreta e actual, evitando cuidadosamente qualquer tipo de vistoria que possa despertar essa serpente venenosa que hiberna no fundo da gaveta e a que chamamos nostalgia. Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi."

"E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar."


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Resenha: Jerusalém, Gonçalo M. Tavares


Queria ler outros livros enquanto leio o Anna Karenina, para conseguir ir mantendo o blog activo. Assim, e como já não lia um livro de um autor português há bastante tempo, decidi procurar este livro de Gonçalo M. Tavares na biblioteca. Além de me ter sido recomendado por uma pessoa com um gosto no qual confio, o livro Jerusalém foi premiado em 2007, com o Prémio Portugal Telecom de Literatura, e na sua contra-capa tem um pequeno excerto do discurso de José Saramago na atribuição desse prémio.

"Jerusalém é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!"
José Saramago
(discurso de atribuição do Prémio)

É difícil fazer um resumo da história sem vos dar alguns spoilers. Isto porque a história não é contada de forma contínua. O que significa que durante algumas páginas o leitor anda um pouco perdido, sem saber ao certo qual a ligação entre os personagens e os acontecimentos narrados.

Resumidamente, este livro narra a história de várias personagens e de como estas se vão cruzando. Diria que o enredo principal seria aquele que é protagonizado pela Mylia e pelo Ernst Spengler.
Mylia considerava-se esquizofrénica e foi assim que se apresentou ao médico que viria a ser o seu futuro marido (e ex-marido), Theodor Busbeck. Eventualmente, Theodor acaba por decidir livrar-se da mulher louca com quem casou e interná-la no mais conceituado hospício da cidade. Isto porque considerava que esta não era uma mulher saudável e que a sua ligação a ela iria manchar o seu nome, coisa que para ele era bastante importante, sendo ele um investigador muito conhecido. 
É neste hospício que Mylia conhece Ernst, um homem com um andar bastante peculiar e que lhe marcará para o resto da sua vida. 

"Ela que está com a morte fechada num sítio de onde já não sai; ela quer precisamente o perigo, aquilo que ainda a excite, que ainda revele nela energia suplementar."

Além destes personagens, Hanna, uma prostituta que vive com Hinnerk, um homem que combateu na guerra e que trouxe desta o medo com que vive diariamente. Não quero contar mais sobre o desenrolar da história, porque não quero mesmo estragar nenhum momento para quem for ler este livro. É uma história que envolve loucura, dor e até traição, não me referindo apenas ao adultério, mas também a outros tipos de traição.

"Hanna não pintava as pálpebras de cor roxa para ser amada, mas sim para que a solidão de um homem visse ali uma interrupção exuberante."

Quanto à história, acho que vale muito a pena. Inicialmente passei algumas dificuldades e cheguei mesmo a achar que este livro ia ser uma desilusão, porque não conseguia perceber nada da história. Isto porque num capítulo temos vários personagens e vários acontecimentos que, aparentemente, não têm nexo ou ligação, mas que com o desenrolar da história vai-nos sendo explicada a maneira como estes se interligam uns com os outros. O autor dá muitos saltos temporais e, por isso, inicialmente achei um pouco confuso, mas rapidamente começam a aparecer novos dados e já dá para ir construindo o puzzle desta história. 

Já a escrita do autor é fantástica, recheada de metáforas. Adorei especialmente a construção dos personagens, que, na minha opinião, foi muito bem feita e de uma forma bastante aprofundada.

Outro aspecto importante que já me esquecia de mencionar é que este livro é o terceiro volume de uma tetralogia chamada O Reino, facto que eu só soube quando estava em casa já com o livro para ler. Contudo, decidi lê-lo na mesma e não senti falta de qualquer detalhe que possivelmente estará nos dois volumes anteriores. Além disso, no fim do livro há pequenos excertos dos outros livros da série e não me parece haver grande ligação entre eles. Por isso, acho que não há problema algum em ler este livro individualmente.


"É Gada que fala. Tem quinze anos.
Entro e saio daqui. Abrem-me como uma porta e fecham-me. Fui operado durante onze anos. Dezassete vezes. Fizeram de mim uma porta durante onze anos. Abriam-me e fechavam-me. Abriam-me e fechavam-me. Também faziam da minha cabeça uma porta.
É Gada, tem quinze anos, uma cicatriz na cabeça."