domingo, 23 de janeiro de 2022

The Woman in White, Wilkie Collins

Apesar de tudo o que era problemático nessa época, adoro literatura vitoriana e faço por ler pelo menos um livro dessa altura todos os anos. Desta vez, li "The Woman in White", do autor Wilkie Collins, dado que, pelo que fui ouvindo falar, seria um livro muito atmosférico, misterioso e obscuro, ou seja, exatamente o que eu queria dele. Uma das coisas que mais me agrada nos livros desta época é precisamente o aspeto gótico, a atmosfera escura e misteriosa, onde as sombras se confundem e tudo ganha uma aura meio sobrenatural. São habitualmente histórias com uma dimensão psicológica interessante, onde a sanidade e a loucura se misturam, onde percebemos que as personagens não são preto/branco, onde a moralidade de cada um é colocada em causa.

Um aspeto que adorei neste livro é a forma como a narrativa nos é apresentada. Temos várias personagens e conhecemos o ponto de vista de cada uma delas. A história é contada, maioritariamente, a partir do futuro, sendo que o narrador principal sabe sempre mais do que nós, incluindo o desfecho da história. Isto foi feito de forma a que ele nos vá deixando essa sensação, de que algo aconteceu e que agora nos serão apresentados todos os factos, o que nos vai alimentando a curiosidade, fazendo com que um livro de mais de 600 páginas não tenha esse peso.

A história começa com Walter Hartright, um professor de pintura, que agarra uma oportunidade de trabalho numa mansão onde vivem duas jovens com o tio de uma delas (acamado e de saúde muito debilitada). À noite, enquanto se dirigia para essa mansão, cruza-se com uma mulher vestida de branco, com quem tem uma curta e estranha conversa, em que esta lhe dá a entender conhecer bem o local para onde ele vai trabalhar. Posteriormente, percebe que esta mulher havia fugido de um asilo e estava a ser procurada.

Não adiantarei mais sobre a narrativa, visto que é muito mais interessante ir desfiando este novelo em conjunto com as personagens. Muito vai acontecer ao longo da história, mantendo-nos sempre muito atentos e com vontade de querer saber mais. Afinal, quem é aquela mulher? De que forma é que conhece aquela família? O que é que ela quer?

Gostei mesmo muito deste livro, embora as últimas 200 páginas me tenham custado mais a ler, porque senti que o autor aí já se tornou repetitivo. Contudo, valeu imenso a pena e tornou-se num dos livros vitorianos que provavelmente mais recomendo. Mesmo sendo um livro escrito por um homem na época vitoriana, e mesmo tendo alguns aspetos discutíveis no que diz respeito à representação da mulher (o que é natural para aquela altura), tem uma das minhas personagens femininas preferidas, a grande Marian Halcombe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O Alienista, Machado de Assis

Outubro, mês da saúde mental, pareceu-me o mês certo para conhecer a escrita de Machado de Assis, nomeadamente o conto "O Alienista", cujo tema principal é a discussão entre o que é e não é a loucura.

Sendo este um conto bastante curto, não irei escrever muito sobre ele. Trata-se da história da criação de um asilo para "loucos" e "mentecaptos", a primeira Casa de Orates. Esta foi a obra do respeitado médico Dr. Simão Bacamarte, que sentiu a necessidade de criar um espaço onde acolhesse estas pessoas, protegendo-as a elas e sobretudo ao resto da população, que de alguma maneira as considerava uma ameaça. 

Contudo, a certa altura tem quase toda a população internada e debate-se com a questão do que define a loucura. Afinal, o que é ser "louco"? O que é ter uma doença mental? Como é que distinguimos isso da normalidade?

Gostei muito da forma como o tema foi abordado e da discussão que levanta, ainda mais tendo sido publicado em 1882. Quanto à escrita em si, ainda não me cativou. Quero ler mais do autor para perceber se gosto ou não, porque neste conto não me impressionou, principalmente pela superficialidade (natural num conto, daí que também não me encante facilmente por este tipo de texto). 

domingo, 7 de novembro de 2021

A Borra do Café, Mario Benedetti

Só de estar a parar para escrever sobre este livro, já me está a dar vontade de o reler imediatamente. Foi o meu primeiro contacto com a escrita do escritor uruguaio Mario Benedetti. Entretanto já tenho na estante outro livro dele para ler, porque me apaixonei com este. Começo a conhecer-me melhor enquanto leitora e já percebi que há temas que são um ponto chave para mim, como é o caso da memória e da passagem do tempo.

Em "A Borra de Café" acompanhamos o Claudio, enquanto recorda episódios da sua infância e juventude, nomeadamente os lugares e as pessoas que os povoaram, atribuindo a cada um uma identidade muito característica e um papel importante na sua vida.


A forma como Benedetti o faz não se torna num amontoado de acontecimentos, sem qualquer ligação. A escrita bonita, com sentido de humor e alguma ironia, transmite uma ideia bastante realista da forma como as nossas memórias estão também pautadas por emoções e de como funciona quando olhamos para elas de um ponto de vista do nosso futuro.


A sensação ao ler este livro é de uma enorme proximidade com o protagonista, como se estivéssemos com ele a percorrer os caminhos da sua memória e a rever sítios, pessoas, relações e sentimentos, com o adicional pensamento crítico do futuro, que não deixa de fazer transparecer a ingenuidade e doçura de vários momentos nos quais entramos. E digo "entramos", precisamente porque me senti completamente imersa neste livro. Largava-o apenas porque tinha mesmo que ser, ou porque outras obrigações chamavam ou porque não o queria acabar, mas ia com ele na cabeça.


É um livro com capítulos curtos e uma quantidade absurda de passagens bonitas ou marcantes pela ironia ou sentido de humor, que nos deixam com um travo mordaz a pensamento crítico e ajudam a estabelecer a ligação entre autor e leitor, levando-nos àquele esgar de quem percebeu a mensagem subliminar àquelas palavras.


Já tenho comigo "A Trégua" e mal posso esperar por lhe pegar. Há algum tempo que não me acontecia gostar tanto de um livro desta forma.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

The Great Alone, Kristin Hannah


Entrei para este livro com a expectativa de ser entretida. Já tinha visto várias pessoas falarem sobre ele como contando uma história dramática, com temas como a violência doméstica e o stress pós-traumático, tornando-o num livro que não se consegue parar de ler. Era isto que eu queria e foi isto que ele me deu, embora não possa dizer que adorei o livro. Ainda assim, recomendo-o e sei de várias pessoas que iriam adorar lê-lo.

Nesta história conhecemos a família da Cora, do Ernt e da filha Lenora. Cora vem de uma família de classe alta, que nunca aceitou bem a sua relação com Ernt, muito menos a gravidez na adolescência. Ernt acaba de regressar da Guerra do Vietnam e traz com ele o trauma de toda a experiência, bem como a desilusão, a raiva e uma série de lutos para fazer. Um desses lutos é o de um amigo militar, que faleceu durante a guerra e lhe deixou um terreno no Alaska. Ernt vê aqui a sua oportunidade de se afastar da sociedade com a qual está desiludido e muda-se para lá, juntamente com a família. A esperança de todos é a de que as coisas melhorem, a violência acabe e Ernt consiga ultrapassar a situação traumática por que passou e que tem despertado nele o seu lado mais negro e violento. A partir daí, assistimos ao desenrolar da história, à sua adaptação a um ambiente tão inóspito e conhecemos outras personagens. 

Há sempre alguma coisa a acontecer até ao final do livro, o que nos prende, e por isso recomendo-o a quem estiver com vontade de ler uma história intensa, com temas bastante pesados. Comigo o livro começou por funcionar muito bem, mas ao longo da história algumas coisas começaram a incomodar-me e fui perdendo o gosto, nomeadamente alguns comportamentos da Cora e da Lenora. Então aquele final... Ainda assim, acredito que seja um livro capaz de agradar a muita gente. E daria um excelente filme!

domingo, 1 de agosto de 2021

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, Svetlana Alexievich

 

Não, não recomendo este livro a toda a gente, embora ache que mais pessoas o deveriam ler. Vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2015, a escrita da Svetlana Alexievich é daquelas que mexe com as nossas entranhas e que nos transforma. É uma escrita que claramente assume uma missão desde o início do livro e que a cumpre até ao final.

Em "A Guerra não tem rosto de mulher" somos apresentados a um lado da História que ficou escondido, mas nunca esquecido - o papel da mulher do Exército Vermelho na 2ª Guerra Mundial (ou a Grande Guerra Patriótica, como foi denominada na antiga URSS). A missão na qual esta escrita embarca é precisamente essa de nos contar a guerra do ponto de vista das muitas mulheres que nela participaram e que vai muito além da versão que conhecemos nos filmes de ação, cheios de condecorações, medalhas e heróis.

É um livro cheio de testemunhos de mulheres reais, que participaram de diversas formas nesta guerra em defesa da sua pátria. Falam-nos do que sentiram antes, durante e depois, do que pensavam e de como se viam enquanto mulheres numa guerra que não estava preparada para elas. Falam-nos da dor, do sangue, do sofrimento e do desespero. Falam-nos do que as motivava a ir para a frente, do que deixaram para trás e do que restou depois de tudo isso - em muitos dos casos não tinha restado nada.

É um livro muito duro e que me marcou profundamente. Sendo eu de uma geração que nunca viveu a guerra na primeira pessoa, é muito fácil cair no distanciamento emocional de algo que acontece lá longe no tempo e/ou no espaço. Este livro traz estas vozes e este sofrimento, completamente ainda em carne viva, para mais perto de nós e é enfrentar isso e aceitá-lo como real e possível que torna esta experiência de leitura em algo tão marcante. Ninguém deveria passar por algo tão horrendo.

sábado, 10 de julho de 2021

The Days of Abandonment, Elena Ferrante

Já tinha lido Elena Ferrante, mas contrariamente à maioria, a tetralogia da Amiga Genial não me prendeu. Li apenas os dois primeiros livros e até gostei, mas não foi ao encontro das minhas expectativas, que estavam bem lá em cima. Ainda assim, e apesar de já ter passado algum tempo, ainda gostava de ler os restantes livros. Um dia, quem sabe... 

A vontade para ler "The Days of Abandonment" surgiu também pela influência de outras pessoas que o foram lendo e que falavam dele como um livro que ilustrava de uma forma real e crua o sofrimento de uma mulher após a separação do marido. Quem me conhece, sabe que os livros que melhor me apanham são aqueles que abordam as emoções mais intensas, a dor e o sofrimento. E este apanhou-me.

O livro é contado na primeira pessoa pela Olga, que de forma completamente inesperada, é deixada pelo marido, Mario. Este decide deixá-la sem qualquer explicação, juntamente com os dois filhos e um cão. A partir daí, acompanhamos a Olga nos seus dias de abandono, entrando completamente na sua cabeça, recheada de dor, sofrimento, raiva e muitos pensamentos doentios. Quem não conhecer o sofrimento humano ou a ele não for suficientemente sensível, facilmente a julgará, especialmente por tudo o que vai acontecendo, a forma como vai perdendo o controlo e como tudo vai tendo impacto em si, nos filhos e em tudo ao seu redor. 

Para mim, a sensação ao ler este livro foi de asfixia, dor e desespero. Enquanto tenta fugir da imagem interna da "poverella", a mulher da sua vizinha que enlouqueceu após o abandono do marido durante a sua infância, Olga atravessa um período extremamente difícil em que tenta fugir de si mesma, ao ponto de quase não ter retorno. Desde a negação e da necessidade de respostas, à procura de culpados, à raiva e à procura de quem é além daquela relação. Tudo isto com duas crianças pequenas, um cão e uma casa para cuidar.

A forma como Elena Ferrante escreveu esta mulher deu-lhe vida no meu imaginário. É impressionante a maneira como a sua escrita entra de forma profunda nos meandros da mente desta mulher e nos marca. Foi difícil conhecer um sítio tão sombrio e espreitar o abismo. Mas ler livros para mim também é isso, espreitar o abismo das experiência humanas e conhecer melhor o que é isto de ser pessoa.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Felicidade, João Tordo

O meu primeiro contacto com a escrita de João Tordo foi com "Felicidade", um dos últimos livros publicados pelo autor. É dos autores que mais tem escrito e daqueles que sempre me despertou curiosidade. Gostei da experiência de leitura deste livro, embora esteja ainda mais curiosa com outros títulos.

Neste livro, dividido em três partes, acompanhamos um adolescente que se apaixona por uma de três gémeas. Estas três irmãs fizeram-me muito lembrar as de "Virgin Suicides", precisamente pelo ar misterioso que nos atrai para elas e pela forma como as conhecemos, meio que à distância. Neste caso, o protagonista apaixona-se pela Felicidade e, sabendo que este é o nome dela e que dá título ao livro, percebemos logo que ela terá um papel predominante nesta história. Eu diria até que é a personagem principal, embora a conheçamos muito pouco e apenas através dos olhos dele.

A narrativa inicia-se em 1973, em Lisboa, numa época de mudanças, das quais pouco nos apercebemos pelo estado meio alienado em que o protagonista se encontra. A sua própria vida dá uma volta brutal ao conhecer Felicidade, que tudo aquilo que se passa à sua volta não tem qualquer importância. Depois de um acontecimento trágico, que nos vai sendo anunciado desde o início do livro, os anos vão passando e a vida também.

Este livro é um prato cheio de referências à cultura daquela época, certamente reconhecíveis para quem a viveu, e que para mim também indicam um excelente trabalho de pesquisa para dar contexto e criar o ambiente envolvente desta história. É um livro sobre como algo muito bom pode ficar para sempre manchado na memória e no momento presente, onde ela se intromete constantemente.

Gostei muito da forma como o livro é escrito, tendo sempre em conta o leitor e em algumas vezes falando diretamente para ele. Foi um livro que me manteve interessada e com vontade de saber como é que esta tragédia ia acabar. Fiquei com vontade de pesquisar sobre mitologia grega, dadas algumas das referências e as ideias exploradas pelo autor. Com certeza que lerei mais obras dele.

segunda-feira, 29 de março de 2021

The Bluest Eye, Toni Morrison


Levei algum tempo a assentar as ideias acerca do "The Bluest Eye", da Toni Morrison. A verdade é que quanto mais penso nele, mais me incomoda. Neste livro temos uma criança como narradora da história, a Claudia, uma menina negra que vive com os pais e a irmã mais velha em Ohio. Mas não é ela a protagonista. Conhecemos a história dela, mas sobretudo a de Pecola, outra criança negra da mesma escola, mas proveniente de uma família bem diferente da sua. Creio que se pudesse argumentar que se tocam em alguns pontos, especialmente no que diz respeito à forma como em ambos os casos tiveram que adotar estratégias de maneira a se adaptarem ao racismo e à exclusão, seja através do silêncio e do assumir de papéis, seja através da revolta e da exteriorização.

O livro está divido em quatro estações e aborda questões tão violentas, mas de uma forma tão leviana e inocente, própria do olhar na terceira pessoa com que vemos a história desenrolar-se. Apesar de a considerar a protagonista, nunca conhecemos bem Pecola de perto. Temos apenas vislumbres daquilo que a narradora conhece, o que durante a leitura me fez sentir que estava a assistir a tudo completamente de fora. Não foi para mim uma leitura imersiva e esta distância que fui mantendo, agora incomoda-me porque me escudou de sentir a revolta que deveria ter sentido em vários momentos nesta leitura. Mas foi um livro desconfortável e tive que desviar o olhar algumas vezes. Custou muito ler algumas das cenas pelas quais Pecola passou e várias passagens onde sentimos uma compaixão tremenda pelo sofrimento daqueles que se sentem feios e completamente postos à parte pela cor de pele que têm. 

A questão da beleza e dos padrões sociais está muito bem trabalhada neste livro e fui-me sentindo triste com a forma como se aceita e integra uma data de preconceitos e com o impacto que isto tem na identidade e autoestima. Quanto mais penso nele, mais zangada me deixa e com mais vontade fico de ler outras coisas da autora. Que mestria na escrita! Entretanto, vi uma entrevista dela acerca deste livro, que deixarei aqui também. Recomendo, porque acho um livro importantíssimo de ser lido e uma história que precisa de ser ouvida, mas é muito duro e poderá ter algumas passagens mais triggering ligadas à violência e o abuso sexual.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Brief Answers to the Big Questions, Stephen Hawking


Se há uns anos me tivessem perguntado se teria interesse em ler este livro, provavelmente teria dito que não. Mas os livros de não-ficção têm vindo gradualmente a ganhar espaço na minha estante, especialmente neste último ano. O espaço sempre me fascinou, mas confesso que foi depois de ver (e adorar) o filme "Interstellar" que surgiu uma curiosidade maior em relação a compreender estes temas. Adoro pensar sobre coisas e aprender sem pressas, então não resisti a este livro quando me cruzei com ele e vejo as questões que traz na contracapa e às quais Stephen Hawking responde dentro do livro.

Deus existe? Quais as origens do universo? Será que podemos prever o futuro ou viajar no tempo? Existe vida inteligente no universo e devemos colonizar o espaço?  Será que sobrevivemos neste planeta? Que papel terá a inteligência artificial? Temos aqui a resposta possível a todas estas questões, ficando com outras tantas para nós - tal como deve ser. Tenho o livro todo sublinhado e com várias notas, qual verdadeiro diálogo entre leitor e autor. Faltam-me vários conceitos básicos, já que esta não é a minha praia, mas aprendi muito e refleti outro tanto.

Apesar de algumas coisas me terem passado um bocadinho ao lado, as ideias estão bem explicadas e entende-se muito bem. Recomendo a quem tiver interesse em passar por uma experiência semelhante e a quem quiser pensar sobre o mundo à nossa volta e aquele que aí vem. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A Metamorfose, Franz Kafka

É difícil falar de um livro tão conhecido como "A Metamorfose", de Franz Kafka. A sua premissa do homem que acorda transformado num inseto já é do conhecimento de muitas pessoas. Também já era do meu quando o li pela primeira vez há vários anos. Ainda assim, e agora mais com a releitura, não deixou de me cativar e de me impressionar como uma obra com tão poucas páginas pode ser tão intensa.

É um livro que nos deixa desconfortáveis enquanto o lemos, inclusive pela forma como está escrito, colocando-nos nos olhos de Gregor Samsa - que, como podem imaginar, não está a passar por um bom momento. Vemos com ele a forma como a família lida com esta sua súbita e inexplicável mudança e sentimo-nos impotentes ao vê-lo conformar-se com o seu novo estado. Gregor acorda doente no corpo de um inseto, embrenhado num ambiente cinzento e oprimido pela insaciável sociedade movida pelo trabalho, que facilmente o espezinharia. 

Assistir à gradual perda de identidade de Gregor e à evolução da reação da família - que passa a ver aquele que antes seria o seu pilar, agora como um empecilho - é algo que vai mexer com as nossas entrenhas. Vamos sentir a tristeza e impotência do Gregor ao ver a situação da família agravar-se cada vez mais, assim como o seu sofrimento ao sentir que não os conseguirá ajudar, muito pelo contrário, sentindo-se cada vez mais um peso.

Tendo lido "Carta ao pai" deste autor, foi impossível não ver aqui resquícios dessa figura paterna tão opressora. A relação com a irmã é a ferida que mais dói nesta história. Este é um livro de digestão difícil, que pode ser lido de diferentes perspetivas e que traz com ele angústias que não perderam a validade e continuam bem atuais. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

Mais um Saramago. E que livro este! "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" destronou "Memorial do Convento" no lugar de favorito do autor, embora este continue a ter um cantinho especial. Não sabia bem o que esperar, além de uma escrita muito inteligente, cheia de simbolismo e sarcasmo, e das críticas e reflexões muitas vezes subjacentes às obras deste autor. E isto já era mais que suficiente, embora tivesse aqui um bichinho de curiosidade, deixado cá pela minha professora de Português do ensino secundário, que falou da polémica que envolveu este livro na altura do seu lançamento. Afinal de contas, é um livro sobre Jesus Cristo, escrito por alguém que é ateu.

E se o título não fosse sugestivo o suficiente, esta é a história de Jesus Cristo contada na sua perspetiva, onde ele é o protagonista e é um ser humano. Começa precisamente com os seus pais, no momento da sua conceção, que nos é apresentada a partir da descrição de uma pintura. A partir daí, acompanhamos o crescimento de Jesus, desde a sua infância com vários irmãos, à adolescência e aprendizagem do ofício de carpinteiro. Acompanhamos Jesus na morte do seu pai José, na busca pelo autoconhecimento e pelo entendimento da fé. Vamos com ele quando sai de casa, conhecemos o romance com Maria de Magdala e o pastor com quem passa uma temporada no deserto. Isto sempre acompanhado das suas dúvidas, angústias e toda a sua busca por compreender quem é, que legado lhe foi deixado por José e, por outro lado, os seus questionamentos em relação a Deus e o Diabo, ao bem e ao mal. É incrível...

Este livro tem vários momentos muito bons e que me vão ficar na memória durante momento tempo, principalmente as questões ligadas a Deus e o Diabo e como os dois se fundem. Aquela cena no mar... Ah! Que soberbo. O cérebro deste senhor devia ser um sítio incrível para explorar. Que saudades... Ele desejava que continuasse a haver tempo para escrever e eu desejo que o tempo continue para poder ler os que ele nos deixou.

sábado, 2 de janeiro de 2021

O Velho e o Mar, Ernest Hemingway

Decidi ter o meu primeiro contacto com a escrita de Ernest Hemingway através de "O Velho e o Mar", já que ouvia falar tão bem dele e, na verdade, vinha mesmo a calhar para iniciar o clube de leitura que tenho andado a desenvolver.

Acredito que as opiniões que fui vendo por aí me tenham também elevado muito as expectativas, mas a verdade é que não adorei este livro. Passei a gostar mais depois de terminar, deixar assentar um bocadinho e depois da discussão em grupo, mas até metade do livro senti que tinha que me forçar para o ler. Muitas outras pessoas têm uma opinião diferente, por isso creio que isto se deva ao facto de não adorar a escrita tão seca e objetiva do Hemingway. O que também pode agradar a outros, visto que é um livro que se lê muito facilmente e vai straight to the point.

Sendo um livro tão curto, não faz sentido revelar muito acerca da narrativa. Aqui conhecemos a história deste homem, já com uma idade bastante avançada (embora isso não seja especificado), cujo sustento é a sua profissão de pescador, mas que já não pesca há 85 dias. Percebemos que as condições em que vive são miseráveis, embora ele nunca se queixe e tente esconder tudo isto (sem sucesso) do rapaz que é seu amigo e com quem costumava pescar. Apesar de não conseguir tirar nenhum peixe há tanto tempo, o velho não desiste e continua a sair para o mar, onde enfrenta uma batalha que quase lhe tira a vida.

É uma história sobre resiliência e sobre uma luta incessante pelo que se quer, apesar de todas as dificuldades. Para mim foi também sobre a forma como nos prendemos a coisas que nos vão desgastando e nos vão fazendo perder oportunidades.

Gostei do livro e das reflexões que me trouxe, embora não tenha adorado a escrita do autor. Tenciono ler mais alguma coisa dele, para perceber se realmente não funciona comigo ou se foi só desta vez.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Cisnes Selvagens: Três Filhas da China, Jung Chang


Demorou, mas foi lido. Há várias coisas que retiro das minhas leituras e uma delas liga-se à minha vontade de continuar a aprender e a ir além do que já conheço. Por isso também é que há uns tempos procurei perceber a origem dos autores que andava a ler, de maneira a tomar decisões conscientes de ler livros que me alarguem horizontes e me permitam conhecer realidades mais distantes da minha. "Cisnes Selvagens: Três Filhas da China", da Jung Chang cumpria esses requisitos.

Este é um livro de não-ficção - coisa que geralmente me intimida um bocadinho -, mas que está escrito de uma maneira muito literária e fácil de acompanhar. Apesar disto, foi para mim uma leitura bastante lenta e tive até a necessidade de fazer uma pausa e intercalar com outros livros. Creio que se deva ao facto de ser um livro longo, com uma história longa e com alguns episódios que nem sempre me interessaram muito. Contudo, foi das melhores leituras do ano e, certamente, o livro com que mais aprendi.

Aqui acompanhamos a história de três gerações de mulheres na China, em que a mais nova é a autora do livro. Começa por nos falar da história de vida da avó, numa altura em que a China vive num sistema imperialista, com valores extremamente conservadores e tradicionalistas, onde a mulher não tem quaisquer direitos, existindo apenas como um objeto para servir o homem. Embora já sabendo de alguns aspetos, a leitura acerca dos costumes e valores desta altura impressionou-me bastante.

Vamos seguindo para a narrativa da vida da mãe da autora, em simultâneo com a ascensão do comunismo e posterior desilusão. Eventualmente chegamos à Revolução Cultural, em que eu tomei realmente consciência de provavelmente a maior razão para atualmente eu não conhecer autores clássicos chineses - já que tanto se perdeu.

A parte mais interessante deste livro foi precisamente a forma como aprendemos acerca da História de um país, em simultâneo com a narrativa de vida de três gerações de mulheres. A minha edição é usada e na primeira folha diz, "Para o Daniel abrir os olhos. Natal '99". Creio que o Daniel terá aberto os olhos e eu também. Aprendi imenso com este livro e recomendo-o muito a quem quiser conhecer melhor este país - para mim tão distante até aqui.

domingo, 29 de novembro de 2020

Great Expectations, Charles Dickens

Mais um livro de Charles Dickens lido e, desta vez, consegui enquadrá-lo na maratona literária #victober. Tinha o "Great Expectations" na estante à minha espera há muitos anos e as expectativas eram elevadas, dado que é conhecido como uma das suas principais obras-primas. Quem me conhece, sabe que adoro livros escritos na época vitoriana e que o ambiente neles criados é sempre uma zona de conforto para mim. Portanto, entrei nesta leitura como quem entra em casa, embora não possa deixar de dizer que tive algumas dificuldades em ambientar-me à escrita, visto que li este livro no original. Talvez por isso não tenha sentido tanta aquela dinâmica do contador de histórias, que tanto associo aos narradores criados pelo Charles Dickens. Ainda assim, adorei esta leitura.

Este é considerado um romance de formação, sendo que conhecemos o protagonista quando é ainda uma criança e o acompanhamos ao longo do seu desenvolvimento até à idade adulta e seguimos a sua formação enquanto pessoa. Este protagonista é tratado por Pip e surge-nos numa primeira cena em que está no cemitério a visitar a campa dos pais. E quando lerem este livro, fixem bem este momento, porque além de nos dar muito a conhecer sobre o Pip e a sua condição social - órfão e de famílias pobres - vai ser um momento importante a revisitar ao longo da sua vida. Nesta primeira cena, Pip é surpreendido por um fugitivo, que o assalta e lhe diz que no dia seguinte lhe terá que levar comida e uma lima, de maneira a alimentar-se e poder fugir.

Depois disto, Pip segue a sua vida e torna-se aprendiz de ferreiro com o marido da irmã, com quem tem uma relação de grande amizade. É com eles que vive e sempre a sentir-se mal, como se ali vivesse por favor, como lhe faz questão de deixar bem vincado pela irmã, que o maltrata. 

As questões da classe social são bem marcadas nesta obra, especialmente quando Pip é convidado a passar algum tempo na mansão de Miss Havisham, que traz um excelente elemento gótico para esta história. Para mim, esta personagem é uma personificação do passado, dos assuntos inacabados e dos lutos por fazer. A sua figura assemelha-se claramente a um fantasma, não só pela descrição que nos é feita, mas também pela sua casa, onde os relógios pararam e onde temos uma sala com um banquete da sua festa de casamento, com toda a comida apodrecida.

Com Miss Havisham vive a sua filha adotiva, Estella, com quem Pip fica maravilhado pela sua beleza e "estatuto", embora seja uma personagem pretensiosa, fria e calculista, que o faz sentir-se rejeitado e inferior. Contudo, é com ela que ele ambiciona ficar, vivendo a sua vida nesta expectativa.

A certa altura, Pip recebe a notícia que alguém lhe terá deixado uma herança e que deve seguir para Londres, de maneira a ser educado como um verdadeiro cavalheiro. Embora lhe tenha sido dito que o nome do seu benfeitor permanecerá secreto e que não deve especular sobre isso, Pip convence-se que se trata de Miss Havisham, alimentando assim a sua esperança de ter sido escolhido por ela como potencial marido de Estella.

Ao longo do livro, vamos acompanhando o desenvolver dos acontecimentos e vamos percebendo a forma como tudo isto vai levando à revelação do caráter de Pip, que cada vez mais se vai distanciando das suas origens, rejeitando associar-se à humildade da sua família. E a forma como Dickens dá um desfecho a esta história e trata esta personagem é brilhante, levando-nos a refletir sobre o dilema entre o ter e o ser, sobre o que é mais importante e o que é que realmente vale a pena.

sábado, 31 de outubro de 2020

A Catcher in the Rye, J. D. Salinger

 

Finalmente, li "The Catcher in the Rye", do J. D. Salinger, e percebi o que andava a perder. Apesar de já ter terminado este livro há algum tempo, continuo com ele muito presente e o protagonista - Holden Caulfield - passou a fazer parte do conjunto de personagens que passeiam pela minha cabeça.

Pelo que me tenho vindo a aperceber, este é um livro que divide opiniões, entre os que adoram e os que odeiam. Eu enquadro-me no primeiro grupo. Para quem vai à procura de um livro focado na ação e gosta de leituras em que estão sempre coisas a acontecer, acredito que se vá sentir frustrado com este livro. Para aqueles que se deliciam com a possibilidade de acompanhar personagens e seguir os seus pensamentos, acredito que tenham maior probabilidade de gostarem desta leitura. Ainda assim, há quem aponte como motivo para não ter gostado, a própria personalidade do Holden - mas já aí vou.

Este livro cativou-me deste a primeira frase, que marca bem o tom de todo o livro e se tornou num dos melhores começos que já li: "If you really want to hear about it, the first thing you'll probably want to know is where I was born, and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don't feel like going into it, if you want to know the truth.".

É este o narrador e é este o tom com que nos fala - informal, descontraído, despretensioso, como se estivéssemos sentados num café enquanto nos conta o que aconteceu com ele durante os dois dias em que se passa este livro.

Recusando-se a dar-nos um background acerca da sua história, e deixando muitas perguntas por responder, Holden, um adolescente americano nos anos 50, é para mim um exemplar do que viria a ser a Geração Beat. Vagueamos com ele por Nova Iorque, num momento em que a escola não lhe está a fazer sentido, assim como o passar do tempo e o aproximar da vida adulta. Facilmente coloquei as lentes depressivas e negativistas deste protagonista e empatizei com o seu sofrimento e a forma de ver o mundo como cheio de hipocrisia - excepto no seu porto seguro, a bonita relação com a sua irmã mais nova.

Ficamos sem saber o que lhe aconteceu até chegar aqui, uma vez que só nos é concedida a oportunidade de espreitar um bocadinho para dentro da sua vida. Terminamos o livro e fica a curiosidade de onde terá ido parar o percurso desta personagem - que para mim foi escrita de uma forma absolutamente realista, que o tornou quase no equivalente a uma pessoa de carne e osso. Uma pessoa que eu própria gostaria de apanhar antes do abismo.

É um dos livro que irei reler ao longo da vida e que ficou aqui num cantinho especial.

domingo, 27 de setembro de 2020

As Vinhas da Ira, John Steinbeck



Há muito que queria ler "As Vinhas da Ira", do Steinbeck e, assim que disse que ia iniciar esta leitura, várias pessoas me disseram que era um favorito, que tinha sido um livro muito marcante e até difícil de ler, pela dureza do seu conteúdo, e que era um livro de brutal importância social. Tudo coisas que me agradaram, portanto.

Neste livro acompanhamos a viagem de uma família, que parte do estado do Oklahoma em direção à Califórnia. Isto dá-se nos anos 30, após o crash da Bolsa (1929), e numa altura em que todas as condições, seja climatéricas, financeiras ou sociais, levam a que esta família se veja obrigada a deixar a sua casa. Os terrenos deixaram de produzir, as máquinas começam a substituir o Homem e os bancos a destruir as casas dos que para eles se tornam em indesejados. Foi o caso desta família e de milhares de outras, que perante a fome e a pobreza se vêem obrigadas a deixar as suas casas onde permaneceram durante gerações, em busca de outras oportunidades e de algum sítio onde as deixassem viver e trabalhar.

Esse sítio era a Califórnia e é para aí que vão os Joad, a família que conhecemos aqui. Vendem tudo o que têm, de maneira a conseguirem as condições para a longa viagem. Vão atrás de um folheto onde anunciam precisarem de trabalhadores. Mas vão eles e muitos, muitos outros, com os quais nos vamos cruzar.

Confesso que levei algum tempo a envolver-me com esta leitura, mas a partir de certa altura passamos a importar-nos com as personagens e a querer vê-las bem. Vemos a luta diária por que passam, em busca de algo tão simples como um sítio para viver e trabalhar, onde sejam tratados de forma digna. E isto é precisamente o contrário daquilo que eles (e nós, através dos seus olhos) vão encontrando pelo caminho, onde são constantemente explorados por parasitas.

Este é realmente um livro com uma tremenda importância social e mantém-se atual nos dias de hoje. Felizmente algumas coisas mudaram, mas atualmente continuamos a viver num mundo em que temos baixas remunerações e em que o trabalhador ou aceita ou virá outro atrás de si a correr ocupar esse lugar. Estes livros ajudam-nos a perceber o caminho que tem sido percorrido, mas como ainda não podemos parar.

Foi duro viver estas páginas com estas pessoas. Steinbeck não nos poupa à dureza desta realidade que ele tão bem conheceu e brinda-nos com um final dos mais marcantes de sempre, e que vem confirmar a resiliência e o importante papel feminino nesta história, onde a personagem mais forte é uma mulher.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

a máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe

Foi desta que li Valter Hugo Mãe. Há anos que tenho este escritor na mira, de tanto ouvir falar bem dele. Aproveitei o empurrão do grupo de leitura "É Desta Que Leio Isto", onde foi lido o "a máquina de fazer espanhóis" durante o mês passado.

Neste livro acompanhamos a nova fase da vida do Sr. Silva, um barbeiro reformado, que é deixado no lar pela filha, após a morte da esposa. E por isto, é um livro que aborda a velhice, o passar do tempo, os medos, o olhar em retrospetiva para a vida que se viveu e todos os sentimentos que isso acarreta. É um livro que nos coloca de tal forma no lugar da sua gente, que é difícil conceber que foi escrito por alguém que nem 50 anos tem. 

O Valter Hugo Mãe dedica este livro sobre a terceira idade ao pai, "que não viveu a terceira idade". E fá-lo de uma forma cheia de empatia e através de uma escrita muito bonita. Encontramo-nos aqui com a ausência de maiúsculas típica de Saramago e com a ausência de marcadores de discurso, o que inicialmente pode parecer um obstáculo à leitura, mas rapidamente se entranha e entramos num ritmo de leitura muito fluído, em que por vezes se misturam pessoas e falas com pensamentos.

Este é daqueles livros que vou querer reler nos próximos anos, porque além do conteúdo da história em si, é uma leitura muito saborosa. Deu-me muito gosto ler a escrita deste autor e pretendo conhecer mais obras dele. Foi mais uma boa descoberta deste ano!

Um dos aspetos que mais me fascinou neste livro, além da escrita e do tema abordado - que não tenho apanhado em muitos livros; foi precisamente as personagens. Na discussão em grupo, questionávamo-nos se estas personagens eram realistas e a verdade é que o conteúdo tão elaborado dos seus diálogos vai no sentido contrário. Mas ao mesmo tempo não deixamos de acreditar nelas e de querer conviver com este grupo de amigos que aqui se formou. Há diálogos muito interessantes e ideias que merecem ser relidas e repensadas. 

Embora sejam livros e experiências diferentes, no outro dia dei por mim a comparar a minha leitura do "Aparição" e esta. Ambas tiveram um impacto semelhante em mim e me deixaram a pensar durante os momentos e dias que se seguiram ao término da leitura. Ambas tratam temas como a passagem do tempo, a existência, a finitude e o sentido para tudo isto. 

"o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."

domingo, 5 de julho de 2020

To The Lighthouse, Virginia Woolf

Desde que reli "Mrs. Dalloway", que pretendo conhecer toda a obra de Virginia Woolf. Ficou claro na altura que a escrita desta mulher é inigualável e tão especial. A leitura de "To the Lighthouse" veio confirmar isso mesmo.

Desta vez li em inglês e confesso que, embora me sinta bastante à vontade a ler nesta língua, tinha algum receio de vir a ter dificuldades em compreender inteiramente a escrita da Virginia. Isto confirmou-se de facto, tanto que senti necessidade de reler o primeiro capítulo numa versão traduzida, de maneira a ter a certeza que tinha compreendido bem o que estava a acontecer. Eventualmente ao longo do livro, experimentei ler algumas partes ao mesmo tempo que ouvia a narração em audiobook, o que também foi uma experiência muito boa. No fundo, não é um livro que se leia enquanto se divide a atenção com outra coisa qualquer. E esta tem sido a minha experiência com a escrita da Virginia. Os livros dela são imersivos e exigem quem entremos neles e prestemos atenção ao que nos está a mostrar.

Como já é habitual no que conheço dos livros desta autora, o mais importante não é necessariamente o enredo, no sentido em que o foco não está numa narrativa cheia de ação e reviravoltas estonteantes. Aqui acompanhamos as férias de uma família inglesa, os Ramsay, que todos os anos vão passar uns tempos numa casa situada numa ilha escocesa.

É um livro curto (cerca de 154 páginas) e que, em termos de estrutura, está dividido em três partes: The Window, Time Passes e The Lighthouse. Na primeira parte é-nos feita uma pintura do quotidiano desta família, em interação uns com os outros e com as pessoas que habitam aquela ilha e com quem já desenvolveram alguns laços. Vamos tomando consciência do que pensam uns dos outros e da forma como olham para as mesmas coisas, tendo cada um o seu ponto de vista. Nas restantes partes, como o título indica, o tempo passou e vamos ver o que isso trouxe para estas pessoas.

"(...) how life, from being made up of little separate incidents which one lived one by one, became curled and whole like a wave which bore one up with it and threw one down with it, there, with a dash on the beach."

É-me sempre muito difícil organizar todos os pensamentos em relação a um livro da Virginia Woolf, porque sinto que quanto mais tempo passa e quanto mais penso, mais ideias surgem e mais encantada fico com o impacto da escrita dela. Este é um livro sobre a passagem do tempo, sobre a marca que deixamos na vida uns dos outros e sobre memórias. É sobre como algumas coisas nos deixam e outras nunca mudam, dando-nos um porto seguro onde podemos voltar. Faz-nos pensar sobre como nunca há só uma forma de olhar as coisas e sobre como muitas vezes assumimos juízos de valor em relação a alguém com base apenas num ponto de vista, que será sempre incompleto.

Gostei muito deste livro, que dizem ser o mais autobiográfico dos seus romances. Quero muito relê-lo e continuar a deixar-me levar pela escrita tão bonita desta autora tão especial.

sábado, 6 de junho de 2020

Eu, Yalom: Memórias de um Psicoterapeuta, Irvin D. Yalom

Nos tempos de faculdade, muitas vezes sentia que devia ir além das leituras que me eram pedidas e aventurar-me mais pelas obras dos autores que andávamos a estudar. No entanto, naquela altura, com tão pouca disponibilidade para ler, nunca trocava os meus livros de ficção por essas obras. Só que depois, em conversa com colegas que diziam andar a ler certos livros técnicos e a adorar, sentia sempre que estava a perder alguma coisa e que devia fazer um esforço. 

Eventualmente, apaziguei-me e deixei de me cobrar leituras que não me apetecia fazer. Até porque comecei a pensar que para um livro ser bom, não basta ter boas ideias, é preciso estar bem escrito; e isso nem sempre acontece. Foi também por isso que este livro autobiográfico do Dr. Irvin D. Yalom me surpreendeu tanto e me marcou enquanto pessoa e profissional. Isto, ao ponto de, pela primeira vez, ter decidido enviar um e-mail ao autor assim que terminei o livro. E ele respondeu! O que acaba por ser condizente com a imagem que criei dele com  esta leitura.

Este talvez seja um livro que recomende principalmente a pessoas que se interessem pelo processo psicoterapêutico, pela relação estabelecida nesse encontro e por conhecerem algumas histórias e o percurso profissional deste autor. Apesar de já me terem sido recomendados alguns livros dele, comecei por este, o último que ele escreveu até agora. Acho que comecei bem, porque dá-nos a conhecer a pessoa por detrás dos livros e da abordagem terapêutica. Identifiquei-me muito com a sua postura humanista e com a forma como cuida de quem o procura. Li-o na altura certa e encontrei nele a orientação e validação de que precisava.

Neste livro acompanhamos os seus tempos de faculdade, percebemos a sua admiração por alguns professores, os primeiros pacientes, os anos como professor e os primeiros esforços por transmitir conhecimento através dos livros. Vamos percebendo a sua sede por inovação e por encontrar novas formas de chegar ao outro e àquilo que nos angustia enquanto seres humanos, nomeadamente através da forma como foi explorando os grupos terapêuticos. Fazemos um caminho pela escrita dos vários livros, do que os motivou e de como foi todo o processo. Conhecemos a pessoa por detrás da obra, as suas próprias angústias e motivações e percebemos quanta generosidade dele transborda ao querer transmitir o que sabe, nomeadamente a jovens terapeutas. 

Senti-me como se estivesse a ler um livro de memórias de alguém que a certa altura parecia um amigo a falar. Daí ter-me sentido confortável para estabelecer o contacto e daí ter tido tanta pena de ler as últimas palavras deste livro. Senti estar a despedir-me de alguém e não me apetecia nada. Acredito que agora, com 85 anos, pense ainda mais na morte e no medo de que tudo se perca, mas com um legado destes, a morte pode chegar que Irvin Yalom ficará connosco ainda durante muitos anos.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Obras Completas (volume 1), Maria Judite de Carvalho


"Para mais essa experiência, a da vida, foi sempre para mim demasiado difícil. Nunca me habituei a ela e isso é estranho porque todas as pessoas a consideram uma coisa simples e natural, a mais natural e mais simples de todas quantas existem. Eu fiz sempre cerimónia e não procedi por isso como devia, como procediam as outras pessoas, mesmo as mais broncas e as mais rudes, com à-vontade. Falei alto quando as regras mais elementares mandavam falar baixo, calei-me quando devia absolutamente dizer alguma coisa, não soube estar. Eu, de facto, nunca soube estar. Escolhi sempre mal as ocasiões para falar e para ficar calada. Troquei tudo, baralhei todas as coisas a ponto de não me achar a mim própria."


Sinto-me tão pequenina ao lado da escrita da Maria Judite, que não acredito ser capaz de articular alguma coisa que faça jus àquilo que encontrarão ao abrir um livro dela. É sempre marcante quando estou a ler um livro e me surpreendo comigo mesma lá no meio, sem quaisquer sinais de aviso. 

No fundo, é por isto que eu leio. É incrível sentirmo-nos ligados a alguém através das palavras. E alguém que as escreveu noutro sítio, noutros tempos, noutra pele, mas que afinal não é assim tão diferente de nós. E que forma tão bonita de usar as palavras! A escrita da Maria Judite de Carvalho é muito especial. Tenho vontade de a oferecer a toda a gente e ao mesmo tempo guardá-la só para mim. Há muito tempo que não me apaixonava assim pela escrita de alguém. E logo à primeira página! E também há muito tempo que não me emocionava ao ler um livro. Aliás, antes deste, não me lembro da última vez.

Felizmente, toda a obra da autora foi recentemente reeditada e publicada em seis volumes, por isso ainda tenho mais por onde ir depois deste. Escreveu maioritariamente contos e novelas, mas também algumas crónicas, poesia e uma peça de teatro. Neste primeiro volume estão os primeiros livros, "Tanta Gente, Mariana" (1959) e "As Palavras Poupadas" (1961). Fui conquistada logo com "Tanta Gente, Mariana", cujas palavras fui sublinhando (à semelhança do resto do livro) e vou agora relendo aos poucos, relembrando-me sempre da vontade que senti de poupar este livro enquanto o lia. Não queria de todo que ele chegasse ao fim, embora saiba que tenho cinco volumes à minha frente. Mas estava-se tão bem ali.

Sendo um livro de contos, não me faz sentido procurar resumir o que neles é abordado. Apesar de também escrever sob a perspetiva masculina, a maioria das personagens destes contos são mulheres que estão fora do trilho que havia sido traçado para a mulher portuguesa de meados do século XX. Através de todas elas, e de uma forma muito profunda, entramos em contacto com várias angústias inerentes à condição humana e à existência tal como ela é. Todos nós temos partes nossas que não partilhamos com ninguém e é aí que a escrita da Maria Judite vai.

Essa audácia expressa na sua obra é algo ainda mais incrível se formos a considerar a época em que foi escrita e o papel da mulher nessa altura. É admirável e inspirador encontrar alguém assim. Alguém que escreve uma obra como "Tanta Gente, Mariana", que foi, como o seu Urbano a viria a descrever, "uma espécie de bomba, sem excessos verbais, que caiu sobre o marasmo da sociedade portuguesa do final dos anos cinquenta, com uma ironia dolorosa, por vezes ácida, denunciando as frustrações e contidas mágoas da mulher portuguesa entregue aos caprichos masculinos e aos «brandos costumes» da hipócrita moral salazarista".